Ontem, o jogo do Sporting terminou com um miúdo a chorar em campo. De comoção e alegria. Aquele adolescente de 16 anos e 6 dias cumpriu ali o sonho que todos nós sonhámos um dia: jogar com a camisola que amamos, na equipa principal do nosso clube, no relvado do nosso estádio. Nem as bancadas vazias conseguem beliscar a beleza de um momento assim. Foi bonito.

Sem querer, de uma forma perfeitamente espontânea e genuína (sempre a mais eficaz), Dário Essugo fez mais pelo sportinguismo do que centenas e centenas de jogadores fizeram nas últimas décadas. Mesmo aqueles que brilharam em campo e levantaram diversas vezes o estádio inteiro, repleto de gente, em tardes de sol. Para se amar um clube é preciso mais do que isso e basta passar os olhos pelas redes sociais para percebermos como aquelas lágrimas avivaram o mais profundo da alma sportinguista. Provavelmente valerão mais uns quantos milhares de jovens adeptos.

Dar alegrias aos adeptos é bom. Chorar pelo clube é ser como eles. É ser um deles em campo.

Hoje, como é natural, todos os jornais desportivos têm uma chamada de capa sobre o assunto. Que nesse mesmo dia, eu tenha que ler uma citação do treinador do meu clube afirmando que “não sai um Félix todos os dias” para justificar a falta de aposta na formação do Seixal é um sapo (mesmo) muito difícil de engolir. Sobretudo porque todos nos lembramos – apesar do esforço diário para esquecê-las! – das pazadas de jogadores que Jorge Jesus dispensou, despachou ou simplesmente ignorou sem lhes dar uma real oportunidade ou lhes reconhecer o real valor. Bernardo Silva, Cancelo… nem vou nomear mais para não deprimir por completo.

Essugo fez ontem uns minutos, ainda não ganhou nada em concreto. Jesus tem um currículo longo, com vários títulos no palmarés mas aquilo que o mais novo ontem fez nascer está o mais experiente a matar aos poucos. Falo de algo que não é apenas poético e belo, é o coração do jogo. É a alma dos clubes. A tal mística de quem já ninguém parece lembrar o significado dentro do Benfica.

Nem todos se calam, felizmente. Cada vez mais se ouvem as vozes indignadas daqueles que ajudaram a mantê-la viva, cada um a fazer a sua parte para não deixar morrer de vez a mística. Infelizmente a maior parte dessas pessoas está (ou foi) afastada do clube.

Parte do sucesso deste Sporting, não tenho dúvida, passa por esta aposta num conjunto de miúdos – ontem estiveram 8 em campo – que nasceram e cresceram no clube. Para colher frutos é preciso plantar árvores. Mas quem já tem um pomar tem que colher as maçãs a tempo, antes que caiam de maduro ou que venha um vizinho colher a maçã alheia.

O facto de ser Rúben Amorim o treinador deste Sporting eficaz e ganhador diz mais do que parece à partida e as suas declarações de ontem – “Aqui [os jovens da acedemia] sabem que têm sempre a porta aberta” – são tudo menos inocentes.

Não podemos esquecer que Amorim é daqueles que sabe bem o que é a mística. Viveu-a e transpirou por ela. Nem todos revelam o seu amor chorando, alguns declaram-se dançando.