Ontem um penalty no dragão fez levantar novamente a questão de alguns jogadores ou mesmo estruturas poderem fazer favores a um dos grandes do Futebol Português.

A questão surge porque o jogador que cometeu a falta nem é um habitual titular e já esteve emprestado ao Porto B. Em cima disso o ex-Treinador do Moreirense, César Peixoto, desistiu do cargo alguns dias antes do jogo por “tentativa de intromissão dos responsáveis do clube nas opções técnicas e estratégicas do treinador”. 

Tudo isto lança novamente uma desconfiança no nosso Futebol que não é de hoje, é apenas mais um episódio de uma série que talvez um dia estejamos a ver, com vergonha, na Netflix. 

O problema é que o panorama da discussão dispara sempre para o clássico “Mas tu também…”. Os portistas não discutem o tema, apenas lembram casos como o do Luís Felipe ao serviço do Vitória de Setúbal que tinha sido jogador do Benfica e fez um penalty absurdo poucos minutos depois de entrar, já os Benfiquistas avisam os Sportinguistas que o Tonel os safou com a mão num jogo há uns anos, os Sportinguistas também agarram em exemplos homólogos para defender as suas cores.

E é isto… hoje em dia é isto e não há discussão sobre nada. Se há um penalty por discutir, defende-se com imagens de outro, de outro jogo para justificar um erro. Se há uma expulsão mostram-se imagens de outra parecida que não houve expulsão, etc.

Em cima disto temos linhas de fora-de-jogo discutidas por arquitectos de algibeira que metem em causa o alinhamento das mesmas, com 2020 ainda acrescentamos a dúvida sobre os casos de Covid que são ou não todos claros ou se alguém esconde os seus. 

Enfim, é um poço sem fundo que todos alimentamos e que pior: não de de todo combatido por quem gere o nosso Futebol. Porque sim, é possível fazer-se mais e é possível mostrar que pelo menos estão atentos e não coniventes com tudo isto. 

  • Não se sabe se estes casos que levantam dúvidas são investigados ou sequer se há alertas para outras entidades investigarem,
  • Não se sabe se estas queixas dos Treinadores são sequer ouvidas e podem ser criadas regras que impeçam este tipo de comportamento Diretivo,
  • Não se sabe se quando há lances duvidosos há algum alerta,
  • Não se sabe o que fazem quando se ameaçam árbitros,
  • Não se sabe o que fazem quando se formam, promovem ou despromovem árbitros,
  • Não se centralizam os testes covid nem se rastreia de forma inequívoca os mesmos,
  • Não se traçam linhas de fora-de-jogo “live” como na Premier League mas sim em backoffice demorando minutos até vermos afinal qual a distância medida,
  • Não se ouve o que o árbitro fala com o VAR,
  • Não se ouve o que o árbitro explica aos jogadores como no Rugby,

No fundo o que um adepto comum sente é que ninguém está a olhar para isto… Não há um gabinete sério e independente que tome decisões de alertas, de ligação com autoridades. Não há ninguém a ter ou a pensar em ideias estratégicas para limpar isto cada vez mais, para tornar tudo mais transparente, para pelo menos reduzir ao máximo a desconfiança que, cada vez mais, está a destruir o Futebol e está a tirar energia e seriedade aos adeptos.

Os adeptos não são inocentes, mas também não podem ser apontados como os únicos culpados quando toda a envolvente é cúmplice, quando todos os casos são completamente ignorados e deixam-se evoluir na praça pública e nalguma imprensa. 

Mas depois estas entidades ainda se queixam que são mal vistas, que há cada vez menos adeptos, que o ambiente à volta do Futebol mudou, que há violência a mais, que há um descrédito imenso face a tudo isto. Há sim, e vai continuar a haver enquanto a gestão seja feita nas caves e nos bastidores, enquanto as decisões forem tomadas sem estratégia mas sim com paninhos quentes para compensar isto ou aquilo. 

Aos jogadores que possam ser aliciados: Este foi o desporto e a profissão que escolheram, esta foi a vida que escolheram para o dia a dia, este foi o caminho que escolheram para um dia os vossos filhos e netos poderem contar a vossa história. Porque raio estragar tudo por Patacas? Porquê? Porquê ignorar tudo o que o Futebol vos deu e a memória que podem deixar? Querem esconder a vida toda que se venderam? Querem que, caso se descubra, os vossos filhos tenham vergonha de falar sobre o que o Pai fez a vida toda? Qual a lógica? Que ambição é essa? 

Aos Clubes que aliciam e que possam ser aliciados: Têm a mínima noção do que esperam os vossos adeptos de vocês? Têm ideia do esforço que os adeptos fazem para estar presentes, para pagar quotas, para evangelizar os filhos, para negociar com a família o tempo e dinheiro que perdem convosco, para discutir desde que acordam até se deitam o que aconteceu no vosso jogo do dia anterior? Têm noção do espaço que ocupam na vida destas pessoas? Do quanto condicionam a vida deles? 

Aos adeptos: Façam este exercício: quando forem discutir um lance, um jogo, o que seja, pensem que não estão a discutir Futebol e que os equipamentos não têm cor. Ficarão surpreendidos com a quantidade de opiniões formatadas que têm, preconceituosas e por vezes até doentias. Se discutissem assim qualquer outro tema que não fosse Futebol seriam considerados uns imbecis. Porque não faz sentido! E isso só faz com que as entidades que o regulam ou que o deviam regular continuem a meter as culpas em nós e a desresponsabilizarem-se. 

Este não foi o Futebol que me deram a conhecer em miúdo. Este não foi o ambiente que vivi quando ia com o meu Avô ao Estádio. São essas memórias que queremos de volta. 

A todos: Não acabem com o Futebol.